Manifestações pelo impeachment: 13 de dezembro nas redes

É quase irresistível tecer comparações entre as manifestações pró-impeachment deste dia 13 de dezembro e as ocorridas em março, abril e agosto deste ano. Nestes intervalo de quase 9 meses o cenário político muito se alterou. De certa forma há um esfriamento na tempetatura das manifestações pró-impeachment. Apesar do impeachment de Dilma Rousseff ter agora efetivamente entrado na pauta na Câmara dos Deputados, a pressão nas ruas está visivelmente menor. O termômetro das redes também acusa este esfriamento.

Em 8 de março o estrondoso panelação durante pronunciamento de Dilma prenunciava a mobilização social que tomaria as ruas uma semana depois.
hora
Um comparativo do volume de citações/hora recolhidas no Twitter nos dias 15 de março e 13 de dezembro deixa claro a discrepância entre as grandezas. Além disso, o número de atores sociais envolvidos também caiu de maneira significativa. Em 15 de março, 85.203 perfis compunham a rede de compartilhamentos de mensagens, gerando um total de 185.356 RTs. Neste domingo (13), o número de perfis envolvidos nesta rede caiu para 34.105. O volume de RTs também acompanhou a queda, ficando em 109.944.

Além disso, uma análise do volume das principais hashtags que circularam pelo Twitter neste domingo ajuda a complementar o quadro de disputa simbólica nas redes.

hashtags
As redes de apoio ao governo federal emplacaram a principal hashtag do período: #NãoVaiTerGolpe. A tag foi a mais citada no período, com 59.336 ocorrências. Outras tags relacionadas são: #NaoParticipeDoGolpe (4.427) e #DilmaFica (4.101 ocorrências). A hashtag #VemPraRua foi a segunda mais citada, com 39.451 ocorrências. Outras tags pró-impeachment também ganharam destaque, como #vemprarua13dez (12.274 ocorrências), #foradilma (9.321 ocorrências), #ImpeachmentDilma (7.871) e #forapt (5.716). Mas, mesmo somadas, as tags #vemprarua13dez e #VemPraRua não alcançam a principal tag do campo governista. Cabe ressaltar que as hashtags são também territórios em disputa simbólica e que, também por isso, em diversos casos as mensagens empregam mais de uma hashtag.

Outra observação importante é que, nos parece, o campo governista não concentra toda a crítica ao movimento pró-impeachment. Há setores progressistas desconfortáveis com o movimento pró-impeachment mas que não encontram motivos para sair em defesa do governo federal. Uma outra tendência de posicionamento à esquerda mantém críticas ao governo Dilma mas opta pela defesa do processo democrático.

Do outro lado do espectro político detecta-se um descompasso entre a circunstância da acolhida do processo de Impeachment por parte de Eduardo Cunha e a mobilização social pelo impedimento de Dilma. Questão de timing: Se antes Cunha era central e imprescindível ao ‪#‎ForaDilma‬, agora ele parece ser um fardo pesado demais para ser carregado.
Os gritos de ‪#‎ForaCunha‬ desafinam o coro dos descontentes. Ainda que permaneça uma rede expressiva pró-impeachment, com Cunha, ao que parece, o #ForaDilma terá muitas dificuldades em emplacar.

Redes de Compartilhamento

Grupo 1

Manifestações - 15 de dezembro - Cluster 4

A principal autoridade do período observado (entre 7h às 19h horas deste domingo, 13 de dezembro), é o perfil @o_antagonista, canal oficial do blogue homônimo assinado pelos ex-redator-chefe da Revista Veja, Mario Sabino, e o ex-colunista da mesma revista, Diogo Mainardi. O perfil dedicou-se à divulgação de pequenas notas publicadas no blogue ao longo do dia. Houve um esforço de cobertura dos protestos. Entre as publicações mais relevantes destaca-se, por exemplo, um vídeo amador do discurso proferio pelo senador José Serra, que compareceu à manifestação na capital paulista. A postagem que obteve maior engajamento, entretanto, afirma que um assessor da presidenta Dilma seria o dono de um enorme bar no estádio do Beira-Rio (RS), acusando o governo federal de tentar abafar este caso. O tweet recebeu 392 RTs e 372 curtidas.

O perfil @o_antagonista também encabeça o principal cluster que se formou no período, uma rede que envolveu 12.219 perfis, que representam uma fatia de 35,83% do universo total de perfis que compõem a rede de compartilhamentos sobre as manifestações pelo impeachment da presidenta Dilma ao longo do dia.

Este cluster concentrou também boa parte dos atores sociais que dedicaram-se à cobertura dos protestos, envolvendo perfis ligados à veículos de imprensa (como @Estadao, @folha, @bbcbrasil, @JornalOGlobo, @g1, @elpais_brasil), blogueiros da oposição (como o próprio @o_antagonista, além de @diogomainardi, @BlogDoPim e @reinaldoazevedo), movimentos mais claramente identificados ao anti-petismo (como MovBrasillivre, imPTeachment, MollerSandayo, Protest_A), além do Senador Ronaldo Caiado. Em seu perfil, o parlamentar afirmou que “O sentimento hoje, diferente de todos os outros protestos, é de comemoração pela abertura do processo de impeachment” (74 RTs e 58 favoritações). Em sua principal postagem, entretanto, o Senador acusa “defensores do governo” de orquestrar ataque contra a página Vem pra Rua: “O Facebook retirou a página do #VemPraRua? Faltando um dia para as manifestações? Cheiro de ataque orquestrado de defensores do governo.” (506 RTs e 507 curtidas).

Embora os opositores da atual gestão tenham conquistado espaço e visibilidade nas redes, é notável que vozes distribuídas se opõem ao Impeachment.

Grupo 2

Manifestações - 15 de dezembro - Cluster 7

O principal cluster, ou sub-rede, de apoio ao governo (destacado em tom de violeta no grafo) envolveu 9.906 perfis. Trata-se de uma fatia de 23,18% do universo de perfis envolvidos no debate. Este cluster conta com perfis institucionais ligado ao Partido dos Trabalhadores e base aliada (como @ptbrasil, @jandira_feghali, @PtnaCamara,@pauloteixeira13 e @humbertocostapt), imprensa identificado ao campo progressista (@brasil247, @j_livres), ativistas e coletivos de rede (@RodP13, @turquim5, @MudaMais, @BelFMaia).

A autoridade de maior relevância neste cluster é o perfil oficial do Partido dos Trabalhadores, que obteve interações em 83 postagens ao longo do período. O perfil é a quarta autoridade em termos de relevância, considerados todos os perfis que compõem o universo. Em sua postagem de maior popularidade, o perfil divulga um link para o site naovaitergolpe.com, onde está disponível um manifesto contra o golpe assinado por mais de 480 personalidades, de acordo com o próprio site. O tweet recebeu 362 Rts e 397 curtidas.

Grupo 3

Manifestações - 15 de dezembro - Cluster 44

Há ainda um terceiro cluster bastante expressivo, que reuniu uma rede de 6.383 perfis contrários ao impeachment (destacado em laranja no grafo). Esta fatia representa 18,72% do universo de perfis envolvidos nas redes de compartilhamentos. Sua composição é bastante diferente do cluster governista. O tom é de sátira e humor e por isso reuniu um grande volume de perfis não exclusivamente vinculados ao cenário político nas redes. Trata-se de uma rede de tendência progressita em que se destaca a presença de perfis de sucesso no microblogue, com dezenas (em alguns casos centenas) de milhares de seguidores. Esta rede agregou também também figuras como Luciana Genro e o perfil satírico @aeciodepapelao.

A autoridade de maior relevância nesta rede é o perfil @joaoluisjr (19,2 mil seguidores), que obteve interações em apenas três de seus comentários sobre os protestos. Sua postagem de maior relevância contém a imagem de uma pequena citação em jornal impresso: “Não me importo se ela continua ou sai. Só hoje vendi 350 churrasquinhos. Espero que ocorram vários protestos”, atribuída a Danilo Andrade, 18 anos comerciante. O comentário sobre a imagem: “segue sendo uma das posições mais sóbrias e sensatas sobre a questão do impeachment e dos protestos” rendeu 1.629 RTs e 991 curtidas. Por conta dessa postagem, o perfil @joaoluisjr ficou com a segunda posição do ranking geral de autoridades, dado que expressa com eloquência tanto o desdém com que parcela importante das redes enxerga os protestos pelo impeachment, quanto a insatisfação com a atual gestão Dilma. Neste cluster também repercutiu uma imagem de manifestantes vestidos com a camisa da CBF carregando cartazes na escada rolante de um shopping. A imagem foi satirizada em diversas postagens que ironizavam o perfil sócio-econômico elitizado dos manifestantes.

Grupo 4

Manifestações - 15 de dezembro - Cluster 96

Como já identificado em outras manifestações pró-impeachment, há um cluster ligado à oposição aos governos ‘progressistas’ da América Latina. Ests rede concentra veículos de comunicação sul-americanos, e reuniu 2.144 perfis, representando uma fatia de 6,29% do universo analisado. O cluster é encabeçado por perfis como @latercera (do jornal chileno La Tercera), @NoticiasRCN (Notícias RCN, da Colômbia), @InfobaeAmerica (Infobae, da Argentina), além de ativistas opositores aos governos progressistas e de centro-esquerda na América Latina, muitos deles articulados com perfis brasileiros ligados ao MBL (@MovBrasillivre) e à militância tucana (@br45ilnocorrupt). De modo geral estes perfis divulgaram que “protestos massivos” ocorriam no Brasil pela saída de Dilma Rousseff e que “milhares de pessoas saiam às ruas”, uma cobertura bastante distinta da observada na imprensa brasileira, que apesar da grande atenção atribuída ao evento, reconheceu a clara redução no tamanho dos protestos deste domingo em relação aos que o antecederam.

 

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