CARTOGRAFIA DE ESPAÇOS HÍBRIDOS: AS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO DE 2013

Junho de 2013 foi marcado por um sem número de manifestações e mobilizações sociais em todo o Brasil. Originalmente convocadas pelo Movimeto Passe Livre de São Paulo, os atos contra o aumento das tarifas de transporte público ganharam corpo e adesões em massa ao mesmo tempo em que as manifestações adquiriram outras cores e outras pautas.

O curso dos eventos culminou em um ponto de inflexão na história das mobilizações sociais brasileiras. A mobilização de cidadãs e cidadãos nas ruas, levada a cabo por meios eletrônicos de comunicação social, particularmente as redes sociais, influenciaram enormemente a agenda política dos governos em todas as suas instâncias: federal, estaduais e municipais. E o fizeram de maneira tão instantânea quanto as mobilizações ganharam adesão massiva.

Breve exposição metodológica

As buscas realizadas no Facebook visaram capturar citações públicas às manifestações contra o aumento de tarifas do transporte público. Os acontecimentos de São Paulo ganharam destaque nessa análise. O período aqui analisado compreende do dia 5 ao dia 21 de junho. As buscas por postagens públicas feitas a partir de páginas e perfis do Facebook foram efetuadas diretamente por meio de requisições à API da referida rede social. Em seguida, processamos os dados retornados para analisar o compartilhamento de publicações. A análise dos compartilhamentos é rica em signicação, sendo capaz de detectar mensagens de alto capital social que circularam pelas redes. Após processados, os dados foram importados para o aplicativo Gephi, software para a visualização e análise de grafos de redes complexas.

Um grafo é representado por um conjunto de pontos ou nós chamados de vértices que são ligados por retas, denominadas arestas. Para efeito dessa pesquisa, a página ou perfil no Facebook é um vértice ou nó. A ligação entre perfis se dá pelas arestas e representa o compartilhamento de uma postagem. A grosso modo, um perfil com grande confluência de arestas é relativamente mais importante que outro que possui menos arestas atraídas para si.

No Gephi foi utilizado o algoritmo de análise de redes chamado Hyperlink-Induced Topic Search (HITS), desenvolvido por Jon Kleinberg. A métrica HITS atribui dois valores à cada nó: HUBAutoridade.

A autoridade estima o valor do conteúdo de cada página ou nó a partir do número de compartilhamentos de suas postagens.
Os HUBs avaliam o valor de suas ligações (links) para outras páginas ou nós.
Dito de outra forma, enquanto um bom HUB representa um nó que aponta para muitos ‘nós’ da rede, uma boa Autoridade é apontada por diversos outros HUBs.  Em suma, um nó de rede (pessoa ou página) que tenha seus posts muito replicados tem uma grande Autoridade. Já quem compartilha muitos posts de outros perfis tem um valor de HUB mais elevado.

 

Espaço híbrido: Entre as redes e as ruas

A mobilização cidadã nas ruas a partir das redes sociais criou um espaço híbrido entre as redes e as ruas. Havia quem estivesse nas ruas relatando, pelas redes, o calor da mobilização social. Havia quem estivesse nas redes, interagindo, compartilhando e se posicionando, aumentando a mobilização e amplificando o engajamento social, para muito além das ruas.

Evolução dos eventos

Neste espaço híbrido entre redes e ruas foram os agenciamentos em torno das redes sociais que ganharam papel de destaque. Todos os grandes atos nas ruas derivaram de ‘eventos’ agendados a partir do Facebook. Foi a partir deles que os eventos se difundiram pelas redes e, na proporção direta em que aumentava a indignação social, as manifestações ganhavam adesão massiva, potencializando o efeito viral do engajamento social.

As páginas dos eventos, que funcionaram ao mesmo tempo como canal privilegiado de articulação dos ativistas e dos movimentos, foram expressão da composição heterogênea e da construção capilarizada das diversas narrativas que tiveram voz nas manifestações das ruas e das redes.

Um retrato do aumento do engajamento social pode ser tirado a partir da evolução do número de participantes confirmados nos eventos agendados pelo Facebook.

http://mediacru.sh/0s3qMCwqgWzT.png

Primeiro Ato

O aumento do valor das tarifas do transporte público, em vigor desde dia 2 de junho, catalizou o primeiro ato convocado pelo Passe Livre São Paulo no mês de junho. Agendado para 6 de junho de 2013 como evento do Facebook, a página do ato apontava cerca de 20.500 confirmações de presença. Nas ruas, houve confronto entre manifestantes e polícia militar. A avenida 23 de Maio chegou a ser interditada pelo curso da manifestação. Já na avenida Paulista, a tropa de choque foi acionada para dispersar os manifestantes.

Neste dia nossas buscas encontraram cerca de 10.500 mensagens públicas no Facebook.

A maior Autoridade da movimentação nas redes, neste dia, foi a página do jornal Estadão no Facebook, seguido de perto pela página do Passe Livre São Paulo. Abaixo, mas ainda em destaque, a página do NINJA, projeto de mídia independente, e a página da revista CartaCapital.

Abaixo, uma tabela com as maiores Autoridades e os maiores HUBs do período:

[table],Autoridade,HUB
1,estadao,Izaias Santana
2,Passe Livre São Paulo,Manifesto Libertário
3,AnonymousBrasil,Anonymous Brasil
4,NINJA,Cesar Stefanes
5,CartaCapital,Janira Rocha
6,O Globo,Natália Pedroso
7,Recep Tayyip Erdoğan - Türkiye'nin Gururu,Wilbert Santos Will
8,Diren Gezi Parkı,A Verdade Nua & Crua
9,Folha de S.Paulo,Sharon Mehlmann
10,Plínio comenta,Sidinei Donisete
11,Anonymous Rio,Wu Ming
12,Yahoo Noticias,Fabrício Silva
13,ANON H4,Valdci Teixeira
14,Portal R7,Matheus Marques
15,A Verdade Nua & Crua,Julis Do Bandolim
16,Pedro Chavedar,Gilda Miranda
17,AnonOpsBrazil,Moacir Souza
18,Ditadura Digital,Isaac Vieira
19,P.U.T.A.,São Sebastião da Depressão
20,jo soares,Luís Felipe Sá
21,TodoNatalense,Elvis Mello
22,Admiradores Rota,Victor Lago[/table]

Segundo Ato

Um segundo ato foi convodado pelo Passe Livre São Paulo para o dia seguinte, 7 de junho. Na página do evento do Facebook, cerca de 6.200 pessoas confirmaram participação. Manifestantes rumaram do Largo da Batata pela Avenida Brigadeiro Faria Lima em direção à Avenida Rebouças. Dalí seguiram para a Marginal Pinheiros, onde a tropa de choque foi acionada. A manifestação retorna ao Largo da Batata.

Neste dia nossas buscas encontraram aproximadamente 17.000 mensagens públicas.

Ainda no dia 7 de julho, entre as maiores autoridades da movimentação nas redes, repete-se a página do jornal Estadão no Facebook, seguido da página da CartaCapital e da Folha de São Paulo. Abaixo, mas ainda em destaque a página do AnonymousBrasil. A página do Passe Livre São Paulo neste dia foi a sétima autoridade em importância na movimentação das redes.

Abaixo, a tabela com as maiores Autoridades e os maiores HUBs do período:

[table],Autoridade,HUB
1,estadao,AnonymousBrasil
2,CartaCapital,A Verdade Nua & Crua
3,Folha de S.Paulo,Luiza Erundina
4,AnonymousBrasil,#NãoMeCalarei
5,A Verdade Nua & Crua,Jordan Breton
6,Plínio comenta,Alexandre Brito
7,Passe Livre São Paulo,Luccas Valdisserra
8,Bananal,Décio A. Alves
9,NINJA,Erick Morais
10,Imagens Históricas,Catelia Hostelería 2.0
11,Anonymous Brasil,Gabriela Lacerda
12,UOL Notícias,Luiz Augusto Z
13,Rede Esgoto de televisão,João Paulo Teixeira Pires
14,#NãoMeCalarei,André Dias Mannrich
15,Movimento Contra Corrupção,Juliano Fuda Padilla
16,Uma outra Opinião,Anderson E. S. Güebra
17,Mtst Trabalhadores Sem Teto,Edson Salomé
18,Manifesto POA,Liliana Tarifa
19,Liderlerin Lideri Erdoğan,Eduardo Caim
20,Ossostortos - por Thiago Cruz,Henrique Dantas
21,Rede Brasil Atual,Andre Alexandria
22,MSN Brasil,Karine Sena[/table]

Terceiro Ato

O terceiro ato convocado pelo Passe Livre São Paulo teve data em 11 de junho. A página do evento no facebook contou com cerca de 13 mil confirmações de presença. Nossas buscas, nesta data, retornaram cerca de 13 mil resultados. Tal qual os dois atos anteriores este ato também foi marcado por repressão policial. Cerca de duas centenas de pessoas foram presas, aproximadamente duas dezenas foram indiciadas. Nos dias que se sucederam, a repercussão nas redes foi crescente. No dia seguinte, 12, nossas buscas retornaram cerca de 31.000 mensagens.

Analisamos uma amostra estatística retirada de um universo de 142.068 mensagens coletadas no Facebook entre os dias 5 e 12 de junho, agrupando portanto o período que cobre os 3 primeiros atos contra o aumento de tarifa dos transportes públicos. Os dados da pesquisa indicam que a percepção dos usuários da rede social em relação às manifestações convocadas pelo movimento Passe Livre em todo o Brasil neste momento era majoritariamente positiva – 65% das mensagens analisadas percebiam de maneira positiva as manifestações. Uma parcela de 19% das mensagens analisadas indicavam uma percepção negativa dos eventos e outros 15% foram mensagens classificadas como neutras uma vez que tratavam-se apenas da repercussão de notícias sem comentários que permitam inferir a posição do autor da mensagem.

 

Entre os temas mais recorrentes nas postagens coletadas constaram mensagens de apoio ao movimento contra o aumento da tarifa e aos manifestantes, representando uma parcela de 27%. Mensagens que sugeriam a adesão de seus autores aos protestos, contendo convocações para as manifestações, notas públicas do Movimento Passe Livre,  confirmação de presença nos eventos criados para a divulgação dos atos e fotografias com registros pessoais da manifestação, representam uma parcela de 20% dos itens coletados. Comentários negativos, acusando os manifestantes de praticas de depredação do patrimônio público e vandalismo representam 15% do total. Cerca de 11% das mensagens criticavam especificamente o alto valor das tarifas, sem expressar um posicionamento em relação às manifestações e 11% trataram de denunciar excessos na conduta da Polícia Militar. Outros 6% criticavam a postura do Partido dos Trabalhadores em relação às manifestações e 5% criticavam a cobertura midiática dos grandes veículos de comunicação. Havia ainda uma parcela de 3% que associavam as manifestações à corrupção do poder público.

Dentre as maiores autoridades da movimentação nas redes deste dia, encontram-se a página do jornal Estadão no Facebook, seguido da página ‘A Verdade nua & Crua’ e do Passe Livre São Paulo. Abaixo, mas ainda em destaque a página do NINJA e da Folha de São Paulo.

 

Abaixo, a tabela com as maiores Autoridades e os maiores HUBs do período:

[table],Autoridade,HUB
1,estadao,A Verdade Nua & Crua
2,A Verdade Nua & Crua,Movimento Contra Corrupção
3,Passe Livre São Paulo,Passe Livre São Paulo
4,NINJA,AnonymousBrasil
5,Folha de S.Paulo,Bueiro Aberto
6,AnonymousBrasil,Maquiavélico é a mãe
7,Acorda meu povo,Macedex Logistíca
8,Inteligente Vida,Macedo Macedex
9,Rádio BandNews FM,Andrea Matarazzo
10,Juntos,Naian Meneghetti
11,Bueiro Aberto,Thiago Miranda
12,Maquiavélico é a mãe,Bruno César
13,Vírus Planetário,Livraria Marxista
14,Fiscalização Popular dos Transportes Públicos RJ,Mate Trotamundo
15,Catraca Livre,Juliano Moitoso
16,Rede Esgoto de televisão,Thiago Correia Carneiro
17,Takunya,Christian Fedrizzi
18,Geração Invencível,Newton Puerta
19,Rui Montalvão,Viajes Algenova SL
20,Por Traz da Midia Mundial,Thais Souza
21,Partido Comunista Brasileiro - PCB (Oficial),Michelle Tito
22,Se a tarifa aumentar São Paulo vai parar,Rubens Vaz Muller[/table]

Quarto Ato

O quarto ato foi convocado pelo MPL para 13 de junho. Neste ato, pela página do evento, cerca de 28 mil pessoas confirmaram presença. Este foi o ato marcado pela maior repressão policial por parte da tropa de choque. Nas redes circularam muitos relatos de prisões de manifestantes, de violência e de abuso policial.

Uma análise qualitativa a partir de amostra estatística das postagens do Facebook estimou que, neste dia, a percepção dos usuários da rede social em relação às manifestações era majoritariamente positiva, representando uma parcela de 62% da amostra. Usuários com uma percepção negativa em relação à manifestação que ocorria naquele momento em São Paulo representavam 16% do total. Outros 22% foram postagens classificadas como neutras e representam apenas a repercussão de notícias sem comentários que permitam inferir a posição do autor da mensagem.

Dentre os temas mais recorrentes nas postagens do dia 13 estão mensagens de apoio à manifestação contra o aumento das tarifas, representando 27% do total, e críticas à atuação violenta da polícia militar, representando uma parcela de 19% das mensagens – mais que o dobro do volume registrado nos dias precedentes. Outros 13% são postagens que sugerem a adesão de seus autores ao movimento, contendo convocações para as manifestações, notas públicas do Movimento Passe Livre, confirmação de presença nos eventos criados para a divulgação dos atos e fotografias com registros pessoais da manifestação.

Mensagens que criticavam especificamente o alto valor das tarifas, sem expressar um posicionamento em relação às manifestações representam uma fatia de 10% do total e outros 9% eram mensagens que criticavam a cobertura dos grandes veículos de comunicação.

Entre as postagens que evidenciam uma percepção negativa das manifestações estão mensagens que acusam os manifestantes de praticarem atos de depredação do patrimônio público e vandalismo, representando 7% do total e 5% firmam que o protesto contra o aumento de 0,20 centavos na tarifa é irrelevante para solucionar os problemas que o país enfrenta.

A postura do Partido dos Trabalhadores e do prefeito Fernando Haddad em relação às manifestações foi criticada em 6% das mensagens e outros 2% criticam a postura do PSDB e do governador Geraldo Alckmin.

Havia ainda uma parcela de 2% que avaliavan que o direito democrático deveria ser exercido pelo voto, e não em manifestações públicas.

Neste dia nossas buscas retornaram cerca de 45 mil mensagens públicas no facebook. No dia seguinte, a repercussão dos atos espalhou-se ainda mais pelas redes. Cerca de 125 mil mensagens retornaram em nossas buscas.

Entre as maiores autoridades da movimentação nas redes neste dia constaram a página do jornal Estadão no Facebook, seguida da página ‘A Verdade Nua & Crua’ e da página do Occupy Brazil.

A página do Passe Livre São Paulo foi a décima-terceira autoridade mais importante na movimentação das redes.

 

Abaixo, a tabela com as maiores Autoridades e os maiores HUBs do período:

[table],Autoridade,HUB
1,estadao,A Verdade Nua & Crua
2,A Verdade Nua & Crua,Anonymous Rio
3,Occupy Brazil,Passe Livre São Paulo
4,AnonymousBR,AnonymousBrasil
5,Raquel Koch,Mães de Maio
6,Anonymous Rio,Anonymous Brasil
7,Protestaí,AnonymousBR
8,Mães de Maio,UOL
9,Folha de S.Paulo,Movimento Contra Corrupção
10,AnonymousBrasil,Bueiro Aberto
11,Ocupa a Rede Globo,Rede Esgoto de televisão
12,Uma outra Opinião,Socialismo da Depressão
13,Passe Livre São Paulo,Conhecimento é vida
14,Catraca Livre,Verdade Oculta
15,Bueiro Aberto,UOL Notícias
16,Clovis Cranchi Sob,Joao Mattar
17,Rede Esgoto de televisão,Geração Invencível
18,NINJA,Isso é Brasil
19,Por Traz da Midia Mundial,Sociedade Racionalista
20,Rafael Bruno Lopes Salgado,Plano Anonymous Brasil
21,Nerd Socialista,A Educação é a Arma para mudar o Mundo
22,Poliçia 24H,Marcelo Cecchettini[/table]

Quinto Ato

O quinto ato foi convodado pelo Passe Livre São Paulo para o dia 17 de junho. A partir da grande repercussão da repressão policial do dia 13, o Movimento do Passe Livre reorienta-se e abre sua pauta: “Não é só os 20 centavos”, diziam os manifestantes. Não era só os 20 centavos, era também pelo direito de livre manifestação, pela não criminalização dos movimentos sociais, pelo diraito à cidade. A idignação contra a repressão policial torna-se combustível para alimentar a adesão massiva de outros atores sociais, ao mesmo tempo que o alargamento da pauta dava vazão à outras vozes e outras bandeiras.

Neste dia, entre as maiores autoridades da movimentação nas redes encontram-se a página Movimento Contra Corrupcão e AnonymousBrasil. Abaixo, mas ainda em destaque, a página do jornal Estadão no Facebook. A página do Passe Livre São Paulo neste dia foi a sexta autoridade mais relevante na movimentação das redes.

Abaixo, a tabela com as maiores Autoridades e os maiores HUBs do período:

[table],Autoridade,HUB
1,Movimento Contra Corrupção,AnonymousBrasil
2,AnonymousBrasil,Movimento Contra Corrupção
3,estadao,Passe Livre São Paulo
4,A Verdade Nua & Crua,A Verdade Nua & Crua
5,Tico Santa Cruz,AnonymousBR
6,Passe Livre São Paulo,Quero o Fim da Corrupção
7,Quero o Fim da Corrupção,Rede Esgoto de televisão
8,NINJA,Sociedade Racionalista
9,Luizinho Veiga,emBrasilia
10,Isso é Brasil,Bruno Azevedo
11,Rede Esgoto de televisão,Isso é Brasil
12,Folha de S.Paulo,Busão Curitiba
13,AnonymousBR,Anonymous Rio
14,Daniel Guth,Por Traz da Midia Mundial
15,Gregório Filho,UOL
16,humor inteligente,Fardado de Boina Preta.
17,Sociedade Racionalista,Geração Invencível
18,Bruno Azevedo,O Gigante acordou
19,Brasil Contra Corrupção,Anonymous Brasil
20,Pedro Bial,Dia do Basta
21,Admiradores Rota,Dilma Bolada
22,Arquitêta,ANON H4[/table]

Sexto Ato

Na quarta-feira (19) o governador Geraldo Alckmin (PSDB)e o prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) anunciaram a revogação do aumento das tarifas do transporte público. Ainda assim, o Passe Livre São Paulo manteve um ato previamente convocado para o dia 20, com o intuito de comemrar a redução das tarifas. No dia 19 nossas buscas retornaram cerca de 285 mil resultados e cerca de 300 mil resultados no dia 20.

Neste dia, entre as maiores autoridades da movimentação nas redes destacam-se a página do AnonymoysBrasil e do Movimento Contra Corrupão. A página do Passe Livre São Paulo neste dia já não contava na lista das 20 maiores autoridades da movimentação das redes.

Abaixo, a tabela com as maiores Autoridades e os maiores HUBs do período:

[table],Autoridade,HUB
1,AnonymousBrasil,AnonymousBrasil
2,Movimento Contra Corrupção,Movimento Contra Corrupção
3,Última Hora,A Verdade Nua & Crua
4,Isso é Brasil,Isso é Brasil
5,A Verdade Nua & Crua,Última Hora
6,A Educação é a Arma para mudar o Mundo,Rede Esgoto de televisão
7,Rede Esgoto de televisão,AnonymousBR
8,estadao,VEM PRA RUA
9,Viktor Rotgarius,A Educação é a Arma para mudar o Mundo
10,TodoNatalense,O Brasil Acordou
11,Desce a Letra,Revolution News
12,AnonymousBR,Quero o Fim da Corrupção
13,Turbay Júnior,O Brasil acordou
14,NE10,Dia do Basta
15,Anonymous Rio,Gazeta Online
16,humor inteligente,Acorda Brasil
17,Diario de Pernambuco,Geração Invencível
18,Brasil Contra Corrupção,Ralf Geiser
19,Quero o Fim da Corrupção,Rafael Costa
20,Diário do Rio de Janeiro,Brasileiríssimos
21,europeans against the political system,Anarquismo - Liberdade
22,Acorda Brasil,Anonymous Brasil[/table]

 

Breve análise

Observações Gerais

Ao longo dos eventos aumentou enormemente a quantidade de pessoas envolvidas na comunicação bem como seu alcance social total. Quando comparados o volume de postagens do primeiro e do último dia do período considerado encontramos um aumento de mais 40 vezes. (8.750 mensagens no primeiro dia, 361.711 resultados de busca no último dia).

A análise dos dados indica que o ponto de inflexão foi a manifestação do dia 13. A grande repercussão da violência policial aumentou enormemente o sentimento de indignação que foi combustível para a automobilização social e para o disparo de um mecanismo veloz de auto-comunicação de massas.

Outra importante constatação é a comprovação de que as conversações nas redes distribuídas foram decisivas para a formação de micro lideranças das mobilizações e para o surgimento de novos grandes nós de Autoridade (os diversos coletivos Anonymous; Movimento Contra a Corrupção; A Verdade Nua & Crua, entre outros).  A ausência de partidos, sindicatos e movimentos sociais consolidados indica um novo padrão de mobilização social sem a presença de estruturas centralizadas.

Liderança distribuída

Inicialmente convocadas pelo Passe Livre São Paulo as manifestações seguiram um curso próprio, em certa medida independente da vontade dos idealizadores originais. Em vez de organizadores, encontramos apenas propositores originais que tenderam a se dissolver no curso das manifestações. Ao contrário dos movimentos tradicionais, com centros difusores de informação mais verticalizados e concentrados, encontramos um padrão de comunicação horizontalizada, com adesão distribuída.

As manifestações não foram convocadas a partir de centros privilegiados, os centros emergiram como conseqüência dos próprios eventos e, por vezes, mudaram de lugar. Foi na ausência de estruturas verticais que se estabeleceram as relações horizontais da comunicação distribuída, dissolvendo-se a divisão entre ativistas e base social mobilizada.

As manifestações e a mídia

É preciso olhar mais de perto a presença constante de grandes veículos como Autoridade nas análises dos compartilhamentos da rede. A página do perfil do Estadão no Facebook apresentou-se como a maior Autoridade nas redes durante os 4 primeiros atos. Apenas no quinto e no sexto ato ela perde relevância relativa. Mas é preciso destacar que os canais destes grandes veículos nas mídias sociais, embora de um modo geral apresentem-se como autoridades, configuram-se como péssimos HUBs. Isso se deve ao fato de que não dialogam nas redes, de que usam as redes à maneira do broadcast, não  interagem com outros atores, citam apenas a si mesmos, não ecoam outras narrativas. Por não fazerem o jogo da rede são mera fonte de informação, mas sem capacidade de articulação.

Muito longe de dizer que a presença destes veículos como autoridades nas redes tenham tido alguma influência no curso das manifestações, o que vimos foi o contrário, o curso das manifestações influenciou as principais linhas editorias de cobertura por parte dos grandes veículos.

Ao mesmo tempo aumentam nas redes os comentários críticos sobre a cobertura dos eventos por  parte da grande mídia comercial. Sobraram críticas, por exemplo, ao ‘Datena’, à revista VEJA, ao Arnaldo Jabor e à rede Globo. Repórteres da Globo chegam a ser agredidos e as redes ecoam também o ‘recuo’ da cobertura midiática. A matéria da Globo com Patrícia Poeta veiculada no Jornal Nacional do dia 17 é tomada por parte das redes como um editorial em que a emissora afirma cinicamente total isenção em relação aos fatos que reporta. Ao mesmo tempo as redes ecoam aquilo que consideram ser um recuo de Datena ao vivo e um pedido de desculpas de Arnaldo Jabor.

A crise de representação dirigiu-se não somente às instituições democráticas, mas extendeu-se aos meios de comunicação de massas. As mesmas vozes que clamavam por uma organização social sem intermediários exigiam para si o poder de comunicar-se sem intermediações dos veículos de massa.

Partidos e sindicatos perderam no mês de junho o posto de intermediário privilegiado de convocação e organização de multidões, a mídia de massas perdeu o monopólio de interpretação dos acontecimentos.

Cobertura distribuída e efeito viral

Ao mesmo tempo que detecta-se a ausência de uma única organização hierárquica dos movimentos, quase um movimento autônomo, nota-se a emergência de atores que podem ser considerados “nós pobres” da rede. Suas mensagens adquirem grande relevância não tanto pela sua Autoridade imediada, mas sobretudo pela sua capacidade de ter catalizado reações, viralizando sua narrativa nas redes. O fato desses nós terem ganho muita relevência momentânea não necessariamente culmina em um aumento do seu capital social nas redes.

Um bom exemplo dessa cobertura viral é o vídeo de Marcel Bari, que conta com mais de 110 mil compartilhamentos. Outro exemplo é o vídeo, fartamente difundido nas redes, que registra um policial quebrando o vidro da viatura, que conta com mais de 2 milhões de visualizações no youtube. Estes vídeos tiveram repercussão maior que qualquer notícia de qualquer grande portal.

Durante as manifestações do dia 13 de junho, a cobertura em tempo real realizada pelos próprios actantes que estavam nas ruas enfrentando a polícia militar de São Paulo, competiam com as narrativas da chamada mídia (imprensa, rádio e TV). A repercussão dos milhares de vídeos e imagens postados pelos protagonistas criaram imediata solidariedade dos amigos nas redes e crescente indiganção.

Estas manifestações parecem ter confirmado a definição de Alexander Bard e Jan Söderqvist, segundo a qual uma rede distribuída é aquela em que “todo ator individual decide sobre si mesmo, mas carece da capacidade e da oportunidade para decidir sobre qualquer dos demais atores” (O Poder das Redes. D. UGARTE, 2008: 26)

Poder comunicacional e o poder de criar redes

Estas manifestações descortinam que o poder institucional e o poder das estruturas políticas foram pouco decisivos se comparadas com o poder comunicacional das redes distribuídas. O poder comunicacional, como todo poder, é claramente relacional.

Esta definição de poder comunicacional pode ser compatibilizada com a abordagem de Manuel Castells sobre a comunicação em uma sociedade em rede globalizada que permite “diferenciar quatro formas de poder distintas: poder de conectar em rede (networking power); poder da rede (network power); poder em rede (networked power); e poder para criar redes (network-making power)” (COMMUNICATION POWER. Manuel CASTELLS, 2009: 72).

Entre todas as formas de poder, a mais importante e crucial é a capacidade para criar redes (network-making power), para descobrir novas lógicas envolventes e que atraiam indivíduos e coletivos em suas teias. Para Castells, nas sociedades em rede, o exercício do controle sobre os outros se realiza por meio de dois mecanismos básicos: a capacidade de constituir e de reprogramar as redes segundo os seus interesses e finalidades; e a capacidade para conectar diferentes redes e assegurar sua cooperação estratégica (COMMUNICATION POWER. Manuel CASTELLS, 2009: 76).

As manifestações de junho mostraram o poder de pessoas, fora das instituições políticas, de criar redes de opinião distribuídas. Também mostraram que as corporações da mídia se viram obrigadas a alterar suas linhas editorias de cobertura, tentando reconfigurar as redes e pautar amplas parcelas das massas. A tendência que emana desse momento híbrido é que, cada vez mais, redes de opinião enfrentarão outras redes de opinião.

                                                       Tiago Pimentel e Sergio Amadeu da Silveira – 10/07/2013

  1. Shlomit Or
    Responder

    ecoando outras narrativas! parabéns aos pesquisadores/ autores do textp.

  2. Lili Sampaio
    Responder

    Análise interessante sobre o papel das redes sociais nas manifestações de rua. Confirma o que eu senti aqui de longe, a possilidade de obter informações variadas, interpretações pessoais, análises plurais, muito diferente da informação unívoc "A crise de representação dirigiu-se não somente às instituições democráticas, mas extendeu-se aos meios de comunicação de massas. As mesmas vozes que clamavam por uma organização social sem intermediários exigiam para si o poder de comunicar-se sem intermediações dos veículos de massa.
    Partidos e sindicatos perderam no mês de junho o posto de intermediário privilegiado de convocação e organização de multidões, a mídia de massas perdeu o monopólio de interpretação dos acontecimentos."

  3. Marcelo Branco
    Responder

    Muito boa a análise das manifestações de Julho por Sergio Amadeu da Silveira e Tiago F. Pimentel!!!
    Destaco:
    "A grande repercussão da violência policial aumentou enormemente o sentimento de indignação que foi combustível para a automobilização social e para o disparo de um mecanismo veloz de auto-comunicação de massas."

    "Muito longe de dizer que a presença destes veículos (das empresas de comunicação) como autoridades nas redes tenham tido alguma influência no curso das manifestações, o que vimos foi o contrário, o curso das manifestações influenciaram as principais linhas editorias de cobertura por parte dos grandes veículos."

    http://interagentes.net/2013/07/11/cartografia-de-espacos-hibridos-as-manifestacoes-de-junho-de-2013/

  4. Rx Brito
    Responder

    Muito interessante, obrigado pelas infos. Bora pras ruas!

  5. Ygor Alves
    Responder

    Deu para sacar qual é a do Anonymus e suas vinculações. Caiu a máscara. São ligados à direita política.

  6. Fator Pesquisas
    Responder

    Excelente pesquisa! Parabéns aos realizadores pela inovação e competência. E que mtas outras venham aí!

  7. Humberto Dantas
    Responder

    Belíssima análise. Ajuda a entender o que aconteceu e provavelmente o que ocorre hoje, dia 11 de julho. Parabéns e obrigado por compartilharem.

  8. Maynar Vorga
    Responder

    realmente muito bom! tem em pdf? vou citar num trabalho acadÊmico

  9. #InterAgentes
    Responder

    Cara Maynar, podemos fazer uma cópia em PDF e enviar para você. Mas, para fins acadêmicos, como a publicação original é foi feita neste site, a citação bibliográfica deveria referir-se a ele, não?

  10. Joab Tenysson Simao
    Responder

    Muito interessante. Fundamental para qualquer análise.

  11. Ale Terra
    Responder

    Muito interessante a pesquisa!

  12. Anhonho
    Responder

    interessante mas tem q avaliar melhor o que eh broascast pq o ninja tb soh aparece como autoridade e nao aparece como hub.. eles tb usaram a rede como broadcast? nao dialogaram com a rede? e uma coisa q passou batida foi o crescimento do movimento de combate a corrupcao e os anonymous no momento em q a pauta foi se endireitando.. cabia ao menos uma mençao no texto. no mais mto bão

  13. giovani luiz alves
    Responder

    É notório que os partidos de esquerda e os sindicatos têm um papel importantíssimo nessas mobilizações. Não é uma questão de partidarizar e centralizar os movimentos, mas da necessidade de formação das bases, mas para isso é necessário se organizarem, ou melhor, se (re)fundarem no sentido freiriano de “estar com” e não necessariamente em “em nome de”.

  14. Vagner Duarte
    Responder

    DO CARAY! Parabéns! Riquíssimo!

    AUTORIDADE = conteudista original ?

    HUB = Compartilha conteúdo da Autoridade e consegue muitas visualizações no próprio perfil ?
    ou
    HUB = Compartilha conteúdo da Autoridade e consegue muitas visualizações em diferentes perfis, mas sempre compatilhados através do perfil do Hub?

    DESTAQUE: "Partidos e sindicatos perderam no mês de junho o posto de intermediário privilegiado de convocação e organização de multidões, a mídia de massas perdeu o monopólio de interpretação dos acontecimentos."

  15. #InterAgentes
    Responder

    Caro Vagner,
    o valor de AUTORIDADE é dado pelo número de vezes que um post deste perfil ou página é replicado, seja este um conteúdo original deste(a) ou não. Já o valor de HUB aumenta conforme uma página ou perfil distribui conteúdos de outros perfis ou páginas.
    Abraços.

  16. Fernando Rosa
    Responder

    Mas faltou analisar melhor a relação entre espontaneidade e ação organizada na rede. A meu ver, a ação planejada, orquestrada, via Anonymus, #ChangeBrasil etc foi decisiva a partir da segunda manifestação. O grande ensinamento é que a "esquerda", o PT, os partidos, o governo foi pego de calças na mão. Já a direita, aquele galera dos "emails" na eleição de 2010 aprendeu com aquela experiência e avançou, especialmente para o "mundo do facebook". Quem não aprendeu novamente, vai pagar muito caro em 2014.

  17. Roese Al'majid
    Responder

    Vc leu?

  18. Daniel Souto
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    Li o título e achei interessante, mas não mergulhei no assunto.

  19. RLF » Die Architektur der Revolution
    Responder

    […] Rios sang man nicht ohne Grund “Brasil va a ser otra Turquia“. Dazu passt, dass die zwei beliebtesten Facebook-Seiten in Brasilien zu Beginn der Proteste Seiten des OccupyGezi-Netzwerk…, auf denen man sich austauschte und Informationen teilte. Darüber hinaus konnte man zurückgreifen […]

  20. RLF » LA NOUVELLE ARCHITECTURE DE LA RÉVOLUTION:
    Responder

    […] va a ser otra Turquia”. A cela s’ajoute qu’au début des protestations, les deux pages Facebook les plus partagées au Brésil étaient des pages du réseau OccupyGezi sur lesquelles il était possible […]

  21. Anna Cristina Andrada Brisola
    Responder

    Obrigada!!! Exatamente o que faltava para amarrar meu terceiro capítulo.
    Posso citar pelo link ou vcs tem uma citação preferencial???
    🙂

    • interagentes
      Responder

      Pode citar pelo link sim.

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