Manifestações do dia 12 de abril

  • Grafo de coocorrência de hashtags

Esta é uma cartografia da rede de compartilhamentos formada por dados recolhidos no Twitter entre 5h do dia 12 até 5h do dia 13 de abril. São dados de posts públicos  pró ou contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

 

A análise de temas e do sentimento da rede é feita a partir da leitura de uma amostra aleatória de posts do período. A análise amostral permite identificar temas ascendentes e manifestações espontâneas que ocorrem fora das redes mais densas, além de permitir a identificação de temas relevantes e a mensuração do temperamento da rede em relação ao governo (apresentado no gráfico de “sentimento”) de maneira mais ampla.

 

Nossa análise mostra que os padrões de compartilhamento no Twitter, neste período, formaram quatro sub-redes (ou clusters) principais:

 

Sub-rede 1, amarela (oposição e opositores ao governo) => 27,74 %
Subrede 2, vermelha (simpatizantes do governo e militância petista) => 25,60 %
Subrede 3, azul ciano (rede heterogênea) => 17,94%
Subrede 4, azul (imprensa sul americana, de oposição ao governo brasileiro) => 7,37%

 Disputa de hashtags

Grafo de coocorrências de hashtags. Este grafo pode ser melhor visualizado neste link

 

A disputa de hashtags deste domingo se deu em torno do slogan de defesa do governo (#AceitaDilmaVez) e o slogans dos opositores (#SaiDilmaVez). A tag #AceitaDilmaVez foi mais citada. Apesar de seu uso mesmo por perfis opositores, que tentaram neutralizar seu sentido com posts anti-dilma, as publicações que a usaram são principalmente pró-governo. A tag #AceitaDilmaVez está presente em praticamente todas as mensagens que obtiveram grande engajamento no cluster de apoiadores do governo federal.

Órgãos da imprensa tradicional como Veja, UOLNoticias, TerraNoticiasBR e UOL publicaram a notícia de que a tag dos defensores do governo chegou aos trending topics. Já perfis opositores como DaniloGentili, SenadorCaiado, NarizGelado, gabrielpinheiro e BlogOlhonaMira fizeram campanha para subir a hashtag #SaiDilmaVez e publicaram printscreens quando ela ultrapassou, nos trending topics, a #AceitaDilmaVez.

A hashtag de apoio ao governo foi a mais citada em nosso levantamento , com 101.140 ocorrências, contra 41.813 da tag #SaiDilmaVez. As redes de oposição emplacaram algumas hashtags relevantes no período: #ForaDilma, #ForaPT, #VemPraRua e #VemPraRua12Abril. A co-ocorrência destas hashtags formou uma rede que representou 42,11% do grafo de hashtags. Já as redes de apoio ao Governo Federal emplacaram a hashtag #AceitaDilmaVez. Isoladamente esta foi a hashtag mais relevante do período e representou cerca de 39,77%, ainda que a somatória das hashtags da oposição tenham levado ligeira vantagem.

A lógica de disputa entre hashtags é similar à lógica panfletária: cada lado usa os recursos que tem a fim de ocupar mais espaço. O fato de prevalecer na comparação numérica não significa uma vitória definitiva — a dinâmica da rede é rápida e essas posições mudam. Ela é, no entanto, uma amostra da disposição dos militantes de disputar o espaço das redes.

Fora da polarização

A polarização na disputa institucional, configurada a parte das legendas PT e PSDB se expressa nas duas maiores redes que se formaram no período. A rede da oposição representa 27,74% dos compartilhamentos, enquanto a rede petista representa outros 25,6%. Essas são redes coesas, cuja participação no debate é relativamente estável.

Ao longo do período formou-se um terceiro cluster de expressão significativa, responsável por 17,94% dos compartilhamentos. Esta rede chama a atenção por se tratar de uma rede posicionada fora da lógica de polarização da disputa institucional. Carregado de mensagens irônicas ou sarcásticas, há uma linha comum em termos de discurso que sustenta as conexões entre perfis e publicações: as mensagens que obtiveram engajamento mais expressivo se posicionam de maneira crítica à cobertura da imprensa tradicional sobre as manifestações deste domingo.

Algumas desdenham da atenção dada à manifestação que coube “à sombra de uma árvore” e questionam a invisibilidade, na economia de atenção da grande imprensa, de iniciativas como o movimento grevista de professores, que quase não repercutem nos canais de broadcasting.

As mensagens também questionam a conduta seletiva da Polícia Militar em relação às manifestações. Fazem um contraponto entre o uso, por muitas vezes excessivo, da força para lidar com manifestações por direitos (que não promovem qualquer tipo de instabilidade institucional) contra a passividade com que lidam com as manifestações pelo impeachment. Esse cluster também comporta um debate mais politizado sobre o sentido do impeachment reivindicado pelos manifestantes. O perfil da ex-candidata a presidência da república, Luciana Genro, questiona o posicionamento “à direita” de quem veste a camisa do “fora PT” ao mesmo tempo em que blinda o PMDB das críticas.

Outro exemplo do tom das publicações é o post do jornalista Alex Cuadros: “@AlexCuadros: 63% of Brazilians want to impeach Dilma. Of those, just 37% know that her VP would become president—and of those, only half can name him” ou “63% dos brasileiros querem o impeachment de Dilma. Destes, apenas 37% sabem que o seu vice-presidente assumiria seu lugar – e destes, apenas metade conhece o nome dele.” (tradução livre). O jornalista completa o tweet afirmando que apenas 12% dos brasileiros que querem o impeachment de Dilma sabem que seu vice assumirá e que o vice é Michel Temer. As mensagens referem-se à pesquisa DataFolha publicada neste final de semana. Enquanto o principal cluster de oposição do governo comemorou o resultado da pesquisa, as mensagens que obtiveram maior adesão nesta rede sugerem consternação com a desinformação dos manifestantes.

Outro destaque é a principal publicação do perfil @Estadao (que ficou com a quarta posição no ranking de autoridades do período): “@Estadao: Fortaleza: Grupo com faixa pedindo intervenção militar é expulso por outros manifestantes http://oesta.do/1DVxxSO” (295 RTs e 229 curtidas). A aderência da mensagem nesta rede sugere uma sensibilidade em relação ao caráter autoritário verificado na reivindicação de parte significativa dos manifestantes, que pedem a intervenção das forças armadas e a volta da ditadura militar, celebrando, inclusive, conhecidos torturadores como heróis nacionais.

 

Nota Metodológica
Este mapeamento considerou 324.642 citações públicas no Twitter, coletadas entre 5h do dia 12 até 5h do dia 13 de abril. Para os fins desta análise adotamos como metodologia a cartografia das principais redes que se formam em torno do debate sobre “impeachment”, constituídas a partir do padrão de Rts das publicações que obtiveram maior engajamento no microblog, bem como uma análise dos atores que conseguem obter maior adesão ao discurso que disseminam na rede, chamados de “autoridade”. Cabe ressaltar que as “autoridades” são definidas pela razão entre o volume de Rts obtido e o volume de citações de autoria de cada perfil. No grafo (representação cartográfica da rede de compartilhamentos das postagens) estão plotados 82.202 nós (cada nó é um perfil do Twitter que postou algo neste período), conectados por 135.445 conexões entre eles (Rts). Aqui, cada nós representa um perfil e cada conexão um compartilhamento (ou RT).

O volume de Rts das publicações é um critério relevante para avaliar a temperatura do debate, tendo em vista que ao compartilhar um conteúdo, o indivíduo endossa seu discurso, emprestando a credibilidade pessoal ao discurso em questão, potencializando o alcance do mesmo por meio das exposição do conteúdo para a própria rede. A análise amostral, por sua vez, permite identificar temas ascendentes e manifestações espontâneas que ocorrem fora das redes mais densas, além de permitir a identificação de temas relevantes e a mensuração do temperamento da rede (apresentado no gráfico de “sentimento”) de maneira mais ampla.

 

  1. Antonio B. Bastos
    Responder

    A conclusão poderia ser oposta. Há vários robôs (isto comprovado) pagos pelo PSDB disparando mensagens. VEJA MATÉRIA…
    Segundo o 'Painel' da Folha, o PSDB estaria contratando 9.000 mil militantes virtuais para elogiar Aécio e falar mal de Dilma e PT. A informação da contratação da militância virtual está escondidinha na própria Folha, numa entrevista (clique AQUI) com César Maia (DEM-RJ), que chamou tal iniciativa de “antirrede social''; de "guerrilha" que poderá ser um "fracasso completo''.

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *