Demasiadamente humanos

Esta é uma pesquisa sobre o uso das palavras “macaco”, “macacos” e “somostodosmacacos” no Twitter, a fim de analisar a repercussão da campanha lançada pelo jogador de futebol Neymar. Decidimos fazer este levantamento por conta da repercussão da campanha e da importância do debate sobre racismo, dentro dos campos de futebol – não apenas na Europa, mas aqui no Brasil – e fora deles.

A enorme controvérsia levantada em torno da campanha lançada por Neymar aponta para a importância do debate sobre racismo, para muito além dos campos de futebol. O futebol, neste sentido, funcionou como um fenômeno social capaz de desvelar dramas, estereótipos e traços culturais da nossa sociedade. A adesão internacional da campanha pareceu ser mais positiva. Já no Brasil ela gerou um enorme debate crítico sobre o sentido da hashtag e do racismo à brasileira.

A pesquisa considera dados de Twitter no período entre os dias 27 e 29 de abril. Nossas buscas retornaram um total de 269.226 postagens. O número absoluto de mensagens coletadas, encontrou seu pico por volta das 21h do dia 28, período no qual foram coletadas cerca de 14.052 mensagens.

Frequencia de postagens/hora

Uso de hashtags

O uso de hashtags refletiu o caráter (inicialmente) internacional da campanha.

Nuvem de tags extraída dos conteúdos dos tweets

Nuvem de tags extraída dos conteúdos dos tweets

 

A rede de compartilhamentos

A rede de compartilhamentos envolvida na controvérsia compôs-se de 119.406 perfis distintos, com 133.065 relações (compartilhamentos) entre eles. Esta rede formou 7.426 grupos distintos de interlocução. Ao logo dos três dias da controvérsia foram coletadas 269.226 mensagens no Twitter. O link para navegar no grafo (mapa de rede) que resultou de nossa busca é este: http://carto-graph.net/SomosTodos/ . É um arquivo pesado, portanto a navegação demanda paciência. Mas por meio dela, pode-se ver cada nó da rede e seus respectivos compartilhamentos.

SomosTodosMacacos

Principais autoridades* – Ranking Geral

Rank Nodo Autoridade
1 neymarjr 0.07727602
2 luis16suarez 0.026060127
3 LucasnaRede_ 0.01894496
4 Lhassum 0.017814513
5 luansantana 0.015433925
6 emicida 0.011523909
7 M0tivacionesF 0.009070174
8 _INRICRISTO 0.0074011027
9 chepitodx 0.0067427834
10 Corinthians 0.0061908592
11 mundodeportivo 0.0060711647
12 cauemoura 0.0058716745
13 BrazilStats 0.005625636
14 luscaspfvr 0.0054660435
15 itsmarquinho 0.0054194955
16 FatosDoTwiteiro 0.0053529986
17 FraseSoja_ 0.0051269094
18 TullinhaLuana 0.004840973
19 Estadao 0.004614883
20 GooglePesquisaa 0.004235851

*Autoridade é uma métrica que estima o valor do conteúdo de cada página ou perfil a partir do número de compartilhamentos de suas postagens. Perfis com postagens muito compartilhadas adquirem alto valor de autoridade.

Uma autoridade mundial

Domingo, dia 27 de abril, sete e meia da noite em Barcelona, duas e meia da tarde no Brasil. O jogador Neymar publica uma sequência de posts em sua conta no Twitter (@neymarjr). No primeiro, fotos de seu companheiro de time no Barcelona, Daniel Alves, no jogo Barcelona X Villareal, realizado aquela noite. Dani Alves (@dani2dois) recolheu, no corner, uma banana que lhe havia sido atirada por um torcedor racista. Não foi a primeira nem a última vez que um jogador estrangeiro sofreu um ataque na Espanha – o próprio Daniel Alves afirma que há seis anos denuncia insultos racistas no campo. Mas foi a primeira vez que se viu uma reação como aquela: Dani Alves comeu a banana e cobrou o escanteio.

Deeeeeitou danid2ois …. TOMAAAAAA BANDO DE RACISTAS …. #SOMOSTODOSMACACOS e dai? http://instagram.com/p/nTvbI8Rth0/“, foi o primeiro post de Neymar, compartilhado 4.265 vezes e curtido 3.222. Vieram mais dois posts e, no terceiro, às oito e meia da noite, Neymar publicou uma fotografia ao lado de seu filho, Davi Luca. O menino, com uma banana de pelúcia. Neymar, com uma banana de verdade. Foi assim que ele lançou uma campanha preparada pela agência de publicidade Loducca, a seu pedido, para reagir contra o racismo e a xenofobia manifestado por torcedores contra jogadores negros e estrangeiros na Europa. Um protesto em várias línguas. “#somostodosmacacos #weareallmonkeys #somostodosmonos #totssommonos http://instagram.com/p/nT115JRtuI/

A reação orgulhosa de Dani Alves e a campanha de Neymar desencadearam uma tempestade nas redes sociais. Somente em uma delas, o Twitter, as menções a “macaco” e “macacos” e a expressão “somostodosmacacos” cresceram, nas três horas depois da primeira postagem de Neymar, de 314 para 12.989 por hora. Um viral que, ao contrário de outros que se espalham aos poucos pela rede, explodiu em poucas horas. Elaborado em termos publicitários e lançado a partir do perfil de uma celebridade, o #somostodosmacacos lançou um enorme debate nas redes, inaugurando uma controvérsia de grandes proporções, com inúmeras perspectivas diferentes disputando o sentido da hashtag.

Futebol

Os três perfis com maior autoridade no levantamento realizado pela Interagentes são o do próprio Neymar e mais dois jogadores de futebol. O jogador uruguaio Luis Suárez (@luis16suarez) publicou uma foto com o baiano Philipe Coutinho (@phil_coutinho) e é a segunda maior autoridade. Enquanto Neymar usou apenas uma frase, traduzida em quatro línguas, ele optou por #somostodosiguales e #somostodosmacacos.

Suárez joga no Liverpool, com Philipe, e é um dos maiores ídolos do time inglês e da seleção do Uruguai. Daí a repercussão de sua postagem, que foi retuitada 4.377 vezes e curtida 3.343. Não foi a primeira vez que o jogador uruguaio se envolveu em um acontecimento de alta repercussão envolvendo racismo. Em 2011, Suárez entrou em uma polêmica após ter chamado o lateral-esquerdo Patrice Evra, do Manchester United, de negro ou de negrito. Na época, argumentou que “negrito” é um termo carinhoso no Uruguai, mas foi punido com multa e suspensão por oito partidas.

Lucas Moura (@LucasnaRede), que jogava no São Paulo e foi companheiro de Neymar nas seleções de base do Brasil, foi a terceira maior autoridade. Seu post, do dia 28, repete literalmente as palavras postadas por Neymar e traz sua própria foto com a banana. Foi compartilhado 3.060 vezes e curtido 1.472.

Entre as vinte maiores autoridades, há ainda o perfil Motivaciones Fútbol, de amantes do futebol; do Corinthians, com jogadores do time aderindo à campanha; da publicação Mundo Deportivo; da Seleção Brasileira, com uma foto de Oscar, David e William, jogadores do Chelsea que fazem parte da seleção. Somente três perfis, neste conjunto de autoridades que comentaram o tema a partir da ótica do futebol, publicaram, em vez de fotos com bananas, as fotografias do gesto de Daniel Silva, que detonou a campanha: Marcus Vinicius (@itsmarquinho), 20Seduzi (@FatosDoTwiteiro) e Soja (@FraseSoja_). Publicaram as fotos de Daniel Silva com a hashtag de Neymar, #somostodosmacacos.

Televisão e música

Um post do humorista Leandro Hassum (@Lhassum), “Somos todos macacos. Tô sem banana em casa. pic.twitter.com/cSmdJYb53N“, publicado somente na manhã dia 29, foi mais compartilhado (29.835) e curtido (24.341) do que o  post mais comentado de Neymar. Mesmo assim, ficou bem longe de alcançar os 11.620 compartilhamentos do conjunto de posts do jogador sobre o tema – e por isso aparece em quarto lugar na lista de autoridades. Sem banana (com uma maçã) e sem hashtag, mas usando a frase da campanha, Hassum, ator que ficou nacionalmente conhecido por sua participação no Zorra Total, entra no ranking de autoridades imediatamente depois dos jogadores de futebol e imediatamente antes do cantor Luan Santana. “O racismo e qualquer outro tipo de preconceito não tá com nada! #somostodosmacacos #somostodosirmaos http://instagram.com/p/nWSbgvGhIe/“, foi o post de @luansantana, retuitado 3.671 vezes e curtido 3.708.

Crítica

Neste grupo de maiores autoridades, a única que publicou uma nota crítica foi o rapper Emicida (@emicida). “Na cabeça rasa do Brasil anti-cotas, que estranha doméstica ter direito trabalhista e pobre no aeroporto, macaco é só uma brincadeirinha…”. Foi retuitado 1.487 vezes e curtido 790. Foi a principal autoridade depois dos jogadores e de Luan Santana.

Assim como Neymar, no dia 27, construiu sua reação ao longo de três posts, @emicida argumentou em mais de uma postagem: “1. Eu não sou 1 macaco. As pessoas q são humilhadas no dia a dia por racistas q permanecem impunes na rua achando q isso é simples, tb não.” “2. O próximo passo é oq? Dizer p/ mulher estuprada ñ levar isso tão a sério, afinal, se ela pensar que é só sexo o estupro deixa de existir?” “3. Quer combater o racismo de verdade Brasil. Re-estude a história pela ótica dos que foram mortos covardemente neste solo por séculos.” e “4. Na cabeça rasa do Brasil anti-cotas, que estranha doméstica ter direito trabalhista e pobre no aeroporto, macaco é só uma brincadeirinha…“.

Foi nesse embate entre a reação de Dani Alves, a campanha de Neymar e as posturas críticas como a de Emicida que a campanha, que era internacional, apesar de contar com protagonistas brasileiros, saiu do mundo midiático tradicional do futebol, da música e da televisão. E formou uma grande e controversa rede no Twitter no Brasil.

O fato de Emicida, apesar de não ser uma celebridade internacional, estar entre as primeiras dez autoridades é importante: mostra que a adesão avassaladora à tag de Neymar encontrou no Brasil sua crítica consistente.

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